Fila para transplantes de córnea no país quase triplica em uma década

A fila de espera por transplantes de córnea no Brasil apresentou um aumento expressivo nos últimos dez anos. De acordo com especialistas, o número de pacientes aguardando por uma córnea na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) praticamente triplicou nesse período, acendendo um alerta para a saúde pública no país.

O crescimento acelerado da fila está relacionado a uma combinação de fatores. A pandemia de Covid-19 agravou o cenário, com a paralisação parcial ou total de cirurgias eletivas e captação de órgãos por longos períodos. Além disso, o envelhecimento da população brasileira aumenta a demanda por procedimentos oftalmológicos, incluindo o transplante de córnea. Outros fatores incluem a falta de informação sobre a doação de córneas e limitações na infraestrutura de captação e distribuição em algumas regiões do país.

Diferente de outros órgãos, a córnea pode ser doada após a morte, sem a necessidade de compatibilidade sanguínea, o que teoricamente facilita o processo. No entanto, a baixa taxa de notificação dos hospitais e a necessidade de autorização familiar ainda são grandes entraves. Após a captação, a córnea passa por uma avaliação rigorosa em um banco de olhos antes de ser liberada para o transplante. O tempo entre a captação e a cirurgia é crítico, o que exige uma logística eficiente, especialmente em um país de dimensões continentais como o Brasil.

As desigualdades regionais também se refletem na fila de transplante. Enquanto estados do Sul e Sudeste concentram a maior parte dos bancos de olhos e equipes especializadas, regiões como Norte e Nordeste enfrentam maiores dificuldades de acesso, o que contribui para filas mais longas e maior sofrimento dos pacientes. Especialistas da área de oftalmologia alertam que, sem medidas efetivas, a fila pode continuar crescendo. Eles defendem a modernização dos bancos de olhos e a capacitação de profissionais em todo o Brasil para aumentar a captação de córneas.

A longa espera por um transplante impacta diretamente a qualidade de vida dos pacientes, podendo levar à perda progressiva da visão, dificuldades para o trabalho, estudo e atividades diárias. Muitos pacientes permanecem anos na fila, convivendo com a cegueira reversível.

O transplante de córnea é conhecido por ter uma alta taxa de sucesso entre os transplantes de tecidos, o que torna ainda mais frustrante a longa espera, já que muitos pacientes poderiam ter a visão restaurada com um procedimento relativamente simples e eficaz.

Especialistas destacam a importância de campanhas contínuas de conscientização sobre a doação de córnea, que é um ato simples e pode devolver a visão a diversas pessoas. O fortalecimento da rede de bancos de olhos e a otimização da logística de captação são passos essenciais para reduzir o tempo de espera e evitar o aprofundamento desse déficit. A fila que quase triplica mostra que o Brasil precisa de políticas públicas mais robustas para a saúde ocular.

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